Hipócrates, entre 430 e 400 a.C., já afirmava em A Doença Sagrada que a epilepsia não era “sagrada” — apenas uma doença com causas naturais. A visão científica nasceu ali. E, ainda hoje, na psiquiatria, seguimos lidando com crenças que tentam explicar o que é, essencialmente, biológico.
Durante 14 anos atuando em emergências psiquiátricas, atendi muitos pacientes — acompanhados de familiares — que acreditavam que seus sintomas tinham origem espiritual. Isso é especialmente comum em quadros psicóticos, nos quais o paciente perde a capacidade de diferenciar suas experiências mentais da realidade externa. E essa dificuldade, infelizmente, ainda nos acompanha.
Explicar algo como: “suas alucinações auditivas são resultado de uma atividade eletroquímica aumentada na via mesolímbica, o que envolve dopamina, a medicação vai agir também nos receptores 5HT2A da serotonina…” — seria totalmente desconcertante para a maioria das pessoas. Mas, cientificamente, é assim que acontece.
Mesmo traduzindo tudo para uma linguagem acessível, convencer alguém que atribui seus sintomas a espíritos ou demônios nunca é simples. O paciente está fora da realidade; a família tem suas crenças — e ambas as dimensões precisam ser respeitadas, sem jamais substituir o tratamento médico.
Em todos os casos, consegui estabelecer um acordo para iniciar a medicação. Dedicava horas, mesmo em pronto-socorro, ao vínculo médico-paciente. E todos retornavam após 40 a 45 dias. No retorno, os sintomas haviam desaparecido ou melhorado muito — e o paciente voltava outra pessoa. Alguns se desculpavam; outros mantinham parte de suas crenças, dizendo frases como: “Deus inspira os médicos, doutor”. E tudo bem: a psicose havia cedido, e isso é o essencial.
Essas experiências sempre me fizeram sentir que honro Hipócrates e todos os pesquisadores, conhecidos e anônimos, que permitem que a ciência avance. A população raramente compreende a complexidade clínica de cada caso: lidamos com a doença, com a interpretação subjetiva do paciente, com sua personalidade, cultura, crenças e com o impacto da psicose sobre tudo isso. É um trabalho que exige técnica, experiência, sensibilidade e respeito humano.