Em psiquiatria, infelizmente, muitos nomes de patologias acabam sendo usados como ofensas.
Ouvimos frases como: “fulano é neurótico”, “ciclana é psicótica”, “esse aí é borderline”, “ela é anoréxica mesmo”, “hoje não vai ser fácil, ele está bipolar”. E os exemplos se multiplicam.
Curiosamente, ninguém diz: “esse aí é um cardíaco”, “ciclana é uma gástrica” ou “ele é enfisematoso”. Nesses casos, surgem empatia, cuidado e respeito. Por que, então, com o paciente psiquiátrico isso costuma ser diferente?
Na minha avaliação, isso se chama ignorância e baixa empatia. Ignorância no sentido literal: ignoram-se fatos históricos, científicos e culturais que, por séculos, distorceram a compreensão das doenças psiquiátricas. Mas são apenas isso: doenças.
Essas visões distorcidas se infiltram nas culturas e nos esquemas mentais das pessoas — não de todas, é claro. A empatia, por sua vez, é o diamante da humanização. Em licença poética, empatia seria “me ocultar por trás do seu olhar para ver o que você vê; por trás do seu coração para sentir o que você sente”. É o biscoito fino da alma.
Tecnicamente, pacientes psiquiátricos apresentam sinais e sintomas bem definidos, com nomes precisos, como em qualquer especialidade médica: fuga de ideias, afrouxamento dos laços associativos, alucinações, alterações da consciência do eu, conteúdos delirantes ou obsessivos. Não é diferente de termos como dispneia, cefaleia ou vertigem em outras áreas da medicina.
Ainda assim, muitos evitam o psiquiatra, vistos como “médicos de loucos”, e passam anos sofrendo, medicados de forma inadequada, até procurarem quem, de fato, entende do assunto. Sofrimento vivido não se devolve.
Doenças psiquiátricas têm diagnóstico, tratamento e, na maioria dos casos, excelentes resultados quando bem conduzidas. Como em qualquer especialidade médica.
Por isso, proponho uma reflexão: não transformemos doenças em ofensas. Não atribuam ao paciente falhas morais, fraqueza ou falta de vontade. Isso é superstição, um produto da ignorância.
Enfatizo: são apenas doenças.
E merecem respeito.