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O Núcleo Basolateral da Amígdala

Em 2002, após concluir minha Especialização em Medicina Comportamental na UNIFESP, vivi um evento extraordinário: fui convidado a ministrar aulas de Neurociência do Comportamento e Terapia Cognitivo-Comportamental dos Transtornos de Ansiedade. Também lecionei Neurociência da Emoção e Psicofarmacologia dos Ansiolíticos. Dar aulas na faculdade onde me formei médico foi uma experiência afetivamente intensa.

Do ponto de vista científico, a valência afetiva envolve, entre outras estruturas, o núcleo basolateral da amígdala. Estudos clássicos mostraram que sua estimulação pode gerar sentimentos como culpa ou tristeza por dias, sem que haja qualquer motivo real. As emoções não “moram” ali, mas essa região é crucial para atribuir valor afetivo às experiências.

A valência afetiva pode ser compreendida como a carga emocional dos eventos, ela que dá peso às experiências e sustenta nossos vínculos mais significativos.

Tragicamente, essa valência pode se distorcer. As causas são múltiplas: biológicas, existenciais, relacionadas à personalidade, a traumas emocionais. Em casos raros, há uma determinação biológica predominante.

Em 1966, Charles Whitman protagonizou um massacre na Universidade do Texas. Antes disso, matou a esposa e a mãe, deixando cartas nas quais expressava não compreender seus próprios atos e solicitava uma autópsia cerebral. A necrópsia revelou um glioblastoma, comprimindo a amígdala direita e regiões límbicas adjacentes. A hipótese é que essa lesão tenha distorcido profundamente sua valência afetiva. Contrasto esse caso extremo com minha experiência pessoal para reforçar a importância do embasamento científico no estudo do comportamento humano.

Em meu caso, meu núcleo basolateral da amígdala, intacto, amostrou a valência afetiva de momentos de imensa realização. No trágico caso de Charles Whitman, a lesão da mesma região distorceu, completamente, o valor afetivo das pessoas que ele mais amava em sua vida.

Sendo assim, engana-se quem considera que pode passar ao largo do estudo da neurociência do comportamento, caso queira aprofundar seus conhecimentos em comportamento humano. Lecionei essa disciplina por 17 anos e como poucos tenho consciência disso.