Em um artigo anterior, descrevi o caso de um paciente com depressão severa, sem sintomas psicóticos, que havia passado por inúmeros profissionais e utilizado antidepressivos de quase todas as classes, sem resposta. A melhora veio, mas exigiu engajamento e tempo: cerca de cinco meses até que a ação progressiva de um único antidepressivo o levasse, literalmente, a um renascimento. Tratava-se de um caso de depressão unipolar, com forte histórico familiar, cuja resposta tardia já era descrita por especialistas da Harvard Medical School.
Esse paciente indicou um familiar que, à primeira vista, também parecia severamente depressivo. Apenas parecia.
Ele chegou confiante: “Meu primo ficou ótimo. Eu também posso esperar o remédio agir.” Havia genética semelhante, sintomas aparentemente graves e disposição para aguardar. Porém, já na primeira consulta, longa e minuciosa, a história não se mostrava compatível com um quadro depressivo unipolar clássico.
O início foi marcado por mudanças insidiosas de personalidade, apatia, momentos de desinibição, perseveração e disfunções executivas. Predominavam o empobrecimento do afeto e da linguagem. Ao exame neurológico, chamou atenção a presença de um reflexo primitivo de preensão — sinal de liberação frontal.
Diante desses achados, a expectativa de depressão unipolar semelhante à do familiar era mínima. Havia depressão, sim, mas secundária a outra patologia. A hipótese foi de um quadro demencial frontotemporal, confirmada pela ressonância magnética. O paciente foi encaminhado ao neurologista, e as manifestações comportamentais passaram a ser tratadas em acompanhamento conjunto.
Quantos pacientes como esse estarão sendo tratados apenas como depressivos? Pouco tempo de consulta, ausência de exame clínico adequado e desconhecimento podem contribuir para erros diagnósticos.
Nem sempre a cura é possível. Mas é o conhecimento científico, a escuta atenta e a avaliação individualizada que permitem o diagnóstico correto.
Como dizia meu professor Alexandre Estrela:
“Curar… não em todas as vezes. Amparar… sempre.”