Há muitos anos, ao retornar de um curso de atualização em psicofarmacologia na Harvard Medical School, atendi um paciente com depressão grave, sem sintomas psicóticos, que havia “peregrinado” por diversos profissionais e tratamentos, sem qualquer melhora.
Após um screening amplo e criterioso para diagnóstico diferencial, o quadro se estabeleceu como Depressão Unipolar. Não havia doenças clínicas associadas e o histórico familiar para depressão era altamente significativo.
Durante o curso na Harvard, três grandes nomes da psicofarmacologia enfatizaram que um determinado antidepressivo, em um subgrupo específico de pacientes, poderia exigir um período prolongado — entre três e seis meses — para atingir sua ação plena. Após esse tempo, porém, os resultados poderiam ser surpreendentes.
Mas como sustentar uma espera tão longa em alguém com depressão grave, após inúmeras tentativas frustradas? Ainda assim, compartilhei essas informações com o paciente. Sua capacidade cognitiva, seu perfil de personalidade, sua história de vida e a forma como ele se vinculava ao tratamento indicavam que havia chance real de engajamento, nessa possível espera.
E a espera ocorreu.
Após quase cinco meses, o paciente evoluiu, gradualmente, para a completa resolução do quadro. A sensação de retomar o controle da própria vida foi descrita como um verdadeiro renascimento — uma libertação comovente, um “trauma às avessas”.
Para quem não vivencia a prática clínica, é importante compreender: um único comprimido diário, no contexto certo e para o paciente certo, pode transformar uma vida. E esse não foi um caso isolado.
Nenhuma dimensão do paciente — personalidade, história, traumas — foi desconsiderada. Mas, naquele caso, a tendência genética e a dimensão biológica foram centrais.
Esse paciente posteriormente me encaminhou um familiar, também com depressão grave. No próximo artigo, relatarei esse caso, que reforça uma lição essencial: cada pessoa é um universo único, que exige escuta, ciência e uma abordagem sempre humanizada.